Blog do escritor Ferréz

O que fiz em quadrinhos

Obras lançadas a alguns anos, entre elas a versão de Desterro em Francês, e o primeiro capítulo de Os inimigos não mandam flores, que originou a HQ Desterro. Também a coletânea Servos dos Servos da editora Capão Redondo, e a Capa Comics, do Rio de Janeiro. a revista Zumbis, foi um convite do grande Franco de Rosa, que desenhou a história que escrevi, uma homenagem aos grandes roteiristas brasileiros. Esse ano tem mais e logo vou postar as novidades desse universo que amo tanto.






Conto do livro Ninguém é inocente em São Paulo (Selo Povo)

Buba e o muro Social                                                                                         


Eu até tinha muitas coisas legais para brincar, um ursinho de pelúcia que eu sempre mordia logo pela manhã, e durante o resto do dia.
Também corria para comer a ração que vinha sempre macia, pois meu dono a mergulhava em água morna, eu também ficava fingindo que estava guardando o portão.
Foi meu pai que me ensinou, ele disse assim:
-          filho! A nossa raça é muito conhecida por ser tranqüila, mas precisamos ser mais do que somente cães bonitinhos e engraçadinhos, o mundo moderno exige que tenhamos mais serventia, do que somente nossos olhos caídos e babas escorrendo.
-          A realidade filho é que os Pitt Bulls estão na moda, e nós estamos ficando pra escanteio, certo, certo que
agente já sabe onde isso vai dar, que quando eles querem um carinho eles veem para nós os Basset que são os melhores, os Hound.
Bom, meu pai era um cara muito inteligente, mas perdi o contato com ele assim que seu dono me vendeu, então eu vim morar com o Moza, que é um cara super 10. Vive saindo a note pras baladas e eu tenho um puta medo de ficar sozinho, mas seguro as pontas, pego meu ursinho e sem ninguém ver eu o agarro com todas minhas forças.
É pessoal, minha vida até que estaria sendo boa, se não tivesse acontecido do Moza precisar de dinheiro e ter me vendido.
Cara, cês num vão acreditar, eu tinha saído de um pet shop chiquérrimo a poucos minutos, tinha tomado um banho chapado e até uma gravatinha tinha ganhado, confesso que uma cadelinha ficou pagando um pau, mas eu fingi que não vi, se sabe né, agente tem que dar uma de difícil, e também confesso uma coisa, eu fui operado quando era bem pequenininho e não posso cruzar, mas faz favor heim! comenta com ninguém não.
Bom, mas continuando o assunto, veio um fusca, um cara muito mal encarado e me pegou nos braços, depois deu um papel para meu ex dono e saiu comigo no carro, o cara dirigia mal pra cassete, e eu fiquei com uma vontade de fazer pipi mas me segurei.
Cara cês num imagina o medo que me deu, eu fui saindo de perto daqueles prédios bonitos e umas casas grandes de cachorro foi aparecendo, nossa parecia que eu tava indo para uma terra de gigantes, fiquei imaginando o tamanho que eles mediam, mas depois me espantei quando vi gente saindo daquelas casas, depois os cachorros que conheci na rua me explicaram que eu estava entrando numa favela.
Sabe aqueles banhos no veterinário? Nem pensar, e a ração gostosa e úmida, nunca mais, depois desse dia estou vivendo somente com ração de combate, e algo louco aconteceu, eu posso ficar dentro de casa, e até dentro do lugar que meu novo dono trabalha, ele fica o dia todo em frente a uma espécie de televisão e fica mexendo os dedos, já ouvi alguém dizer que ele é escritor, mas nunca consegui ler o que ele escreve. Toda vez que chego perto ele logo me dá um carinho e para o que está fazendo, para ficar me olhando com ternura.
Sabe, a primeira vez que choveu, eu tomei um puta susto, pois começou  a encher o quintal de barro, e depois também fiquei sabendo que aquilo era uma enchente, segundo alguns cachorros, uns bichinhos que eu vi e queria brincar na verdade eram ratos, e me orientaram a não chegar perto.
Bom, minha vida mudou muito, as vezes tenho saudade do meu ursinho, mas aprendi a sobreviver aqui, e tenho exemplos de muita vitória, como são os vira-latas, nossa! eles passam cada situação.
Eu quase não faço barulho, também não olho o portão, porque não precisa, é todo mundo conhecido e fica entrando gente o dia inteiro, eles bebem café e conversam durante horas, eu fico esperando a noite chegar, pois no prédio que eu morava eu não via umas luizinhas no céu, e aqui eu consigo ver, e de vez em quando aparece uma bola prateada muito bonita, eu adoro viver aqui, o céu é azul e não cinza como lá.

Bom! É isso, vou sair daqui agora, se meu dono me pega escrevendo eu tô perdido.

condicionados até o osso

Como podemos entrar de cabeça numa competição tão sem limites e sem ganhos reais?
Somos sim condicionados desde que viemos ao mundo, mas porque ganhamos e temos vitórias, mas no final do ano a vida parece tão sem sentido?
Somos enquadrados até o limite real, na moral com quantos valores vamos morrer, e com quantos ainda temos que lutar para tentar se olhar no espelho?
Só na beira da morte vamos nos arrepender? Só bem perto do fim, vamos correr pelo que é verdadeiro?
Competição, acordar todo dia para poder fazer o outro nublar, embaçar, não aparecer.
Farmácias em todas as esquinas, falta amor mesmo, mas falta harmonia, falta coisas simples e não vitórias estimuladas, mas que deixam além de quem perdeu triste, também nos faz menos humanos.
Sei lá, me bateu essa fita, caminhada longa, mas na verdade os títulos são os certos? fizemos a tal revolução de fato? quantas vidas mudamos? mudamos nós mesmos?

Faz eles rí



Us fio tem que entendê
Que siozinho qué rir
Us minino mesmo sofrendo
Tem que aprendê a si diverti

Num basta o sofrimento
Incultado nessa vida
Num basta as mazelas
Vamus esquece as ferida

Antigamente povoação
Hoje é periferia
Zumbi nunca chorou
Morreu na loca corrida

Us encantados foi embora
Se acabaram no bar e na cerveja
Rei Nagô se lamenta
A morte única certeza

Povo guerrero num ri de tudo
Abandonô terrero e esqueceu
Preto evangélico hoje ora
Pai salva filho teu

Mais do céu num vem melhora
Caboclos se entristeceu
Esqueceram os traços e raízes
De um povo que pru zoto viveu.

Muita coisa mudou na estória
capitão mantinha na corrente
A evolução veio sem demora

Hoje o preto  pra polícia é delinqüente.

Mais dois livros da Selo Povo chegando

Depois de relançar o livro Ninguém é inocente em São Paulo e a Revolução dos feios do Ni Brisant, agora é a vez de relançar o Cronista de um tempo ruim, textos que fiz durante muitos anos em veículos como a Caros Amigos, Estadão, Folha de S.Paulo e outros. Ainda esse ano também sai o esperado primeiro livro do Rashid. Vamos avançando com essa iniciativa, que honra a literatura de quebrada e apesar de todos os desafios, nos faz avançar na nossa arte.

Olha quem voltou doutor!!!

Mais de um ano sem conseguir postar nada por aqui, nossa, como tivemos que dar voltas pra ter acesso novamente, mas o inimigo caiu por terra!
Esse blog sempre foi minha casa mais querida, onde sempre digo o que penso, e publico os contos e textos e até crônicas que não caberiam em nenhum lugar.
você que se escreveu a tanto tempo minhas desculpas, agora não vou mais perder acesso.
Aos novos que estão chegando, esse blog reforça nossa luta pela liberdade, não dá pra ficar refém do face book, cada vez menos exposição dos próprios admiradores do trabalho, hoje ele entende muito do que faço como jornalístico e isso diminui mais ainda o acesso.
bora nos ver por aqui,
tamo juntos novamente
Ferréz

Seu voto e uma foto

Vendo essa foto feita por Fabio Andrade, me peguei pensando enquanto olhava para a caveira, que pode muito bem ser a cara do nosso país, o que vale seu voto quando está em curso uma manobra gigantesca apoiada pela maioria política do país, além da mídia sempre parcial. Ontem a Globonews trouxe em seu programa "jornalistico" vários especialistas, em comum, todos apoiavam o golpe chamado de impeachment. O que vale de fato seu voto? Até quando aquele que está ali na urna é de fato alguém que você escolheu? Melhor voltar a olhar pro crânio, vazio, sem olhos, onde já abrigou antes uma alma, um cérebro, assim nosso Brasil nesse momento se iguala. Afinal somos todos iguais assim, só nos ossos.

Rússia - Uma juventude inteira

Andar durante 1 hora até Santo Amaro e poder comprar somente um livro de 1 real.
Minha juventude se resumiu a muitos anos assim.
Me deparei com grandes escritores Russos nesses sebos, que tinham livros velhos, com capas rasgadas, mas muitas vezes tão maravilhosos que faziam um menino do Capão Redondo entrar em outro mundo.
Foi assim com Alexander Pushkin, Dostoievski, Tchekhov, Lérmontov, Tolstoi,  Antioch Kantemir, Vasily Trediakovsky e o primeiro que conheci e que desde então nunca mais larguei Máximo Gorki. 
Muitos autores foram perseguidos pelo regime soviético, coisa que deve ter tornado a literatura deles muito mais forte, como é o caso de Ivan Alekseyevich Buni que depois ganhou o prêmio Nobel de Literatura, bom, ainda indico o Alexander Soljenitsin que foi preso num campo de concentração.
Os autores que citei são de várias épocas e estilos diferentes, mas você pode começar com Tchekhov e o próprio Gorki e depois ir para os outros.
Passei por muitos países, mas ainda vejo a hora de chegar no ambiente que criou tantos autores que me fizeram ao menos por algumas horas, sair do cotidiano violento que muitas vezes me magoava tanto. Um dia coloco o pé na Rússia.


Agradecimento

Quero deixar aqui meu agradecimento a todas as cartas e e-mails que chegaram, de professores que estão adotando o livro em suas salas de aula, e também agradecer aos leitores, que fizeram desse livro um sucesso logo que saiu, foi feito sim, como escrevi na abertura do livro, na rua, e para ela, e ver ele circulando desse jeito, me deixa muito feliz, afinal literatura é para isso, para voltar de onde veio, das quebradas e vielas. 
Muito obrigado, pode apostar que o escritor é problemático mas é sincero.

O caminho existe. chama-se Cultura.

Nada pode mudar mais a vida de uma pessoa do que a cultura, por ela existo, por ela luto todos os dias, e ver meu povo tendo acesso, podendo conhecer tanto os livros, como quadros, como a música, isso sim, é realizar meus sonhos. O resto é vaidade.